🦊 Hábitos e estruturas
A diferença entre um lago e uma enchente são as margens
Sigo lendo o livro Aprender de Coração, de Corita Kent e Jan Steward. Em um dos capítulos, ela diz:
As estruturas são restrições – uma forma de limitação. O que você pode construir dentro de restrições e estruturas é praticamente ilimitado. Elas te forçam a se abrir para ver coisas dentro desses limites que você ignoraria caso tivesse “liberdade” de vagar pelo mundo ou fazer o que desse na telha. Não foi Emerson quem disse que para descobrir tudo sobre o mundo precisava apenas do próprio quintal? Você tem o resto da sua vida para seguir seu próprio caminho sem a estrutura de um exercício, mas irá mais bem equipado depois dessa experiência estrutural. Para não hesitar tentando fazer tudo – ou se perguntando o que fazer –, o ideal é que você aprenda a construir sua própria estrutura ou limites.
Esta é uma das lições mais importantes que cultivei sobre criatividade ao longo da vida: quanto mais podemos fazer, mais difícil é efetivamente criarmos algo. Porém, basta acrescentar algumas restrições aqui e acolá e de súbito ganhamos contornos que direcionam a energia criativa para aquilo que ela realmente serve: a resolução de problemas.
No fim das contas, é a curiosidade aqui mais uma vez direcionando o baile.
Toda boa estrutura, como os andaimes, pode ser desmontada depois que o prédio é construído. Os andaimes serão remontados em formatos diferentes para um outro edifício. Desse modo, você está sempre criando novas estruturas.
Uma escola é uma estrutura, assim como aulas, exercícios, objetivos e projetos específicos. Essas são as estruturas firmes com base nas quais a vida é conduzida e o aprendizado continua. Elas são o rumo que o estudo toma.
Uma das razões pelas quais eu continuo treinando Muay Thai é porque sei que há um professor, uma academia e um grupo de pessoas que estarão lá treinando comigo em certos dias e horários programados. Sou uma pessoa que não gosta de fazer as coisas sozinha, não por muito tempo, pelo menos, então ter um espaço-tempo dedicado e com companhia funciona muito bem para mim. Às vezes tenho preguiça e quero fazer outras coisas? Sim, com certeza, mas aí lembro que
Todas essas estruturas são limitadoras. Se você tem uma aula em determinado horário e local, precisa estar lá e não em outro lugar. Você deve ir porque, caso contrário, sua contribuição (de pensamento, sonho, saber, não saber) fará falta naquela aula, que será mais pobre sem você. Sua presença não é necessária para tirar boas notas ou passar de ano – mas para contribuir para a criação da turma. Assim, a estrutura está lá para você e você também é a estrutura – seus próprios dons ajudam a moldá-la.
O compromisso com minha presença e atenção é o que possibilita não apenas meu aprendizado de Muay Thai, como também a oportunidade das demais pessoas treinarem e aprenderem comigo, com meus erros e acertos.
Da mesma forma, o meu texto só nasce a partir do tempo que dedico para escrevê-lo. Parece óbvio dizer que sem mim, não há meu texto, mas é tão óbvio e desafiador quanto o fato de que para escrever é preciso sentar e escrever.
Entretanto, ser simples e óbvio não torna mais fácil.
Estou sempre procurando maneiras de estruturar melhor minha vida porque reconheço que vivo com mais prazer e sentido com estruturas claras do que quando não tenho margens definidas. Há um par de meses, comecei a colecionar momentos e revisá-los no dia seguinte, mas eventualmente parei. A estrutura que utilizei era clara, mas não estava me levando a um objetivo específico, e ter um objetivo é um bom marcador para uma estrutura bem desenhada.
Há uma semana, comecei um novo processo, inspirado neste vídeo (em inglês):
O processo funciona assim:
Em uma página, marco uma linha por dia do mês. A cada dia, anoto uma coisa daquele dia que apreciei, que foi memorável, que quero deixar registrada. Uma coisinha só, grande ou pequena.
Na outra página, faço uma lista de hábitos em colunas e marco um xis naquela coluna se, no dia respectivo, eu realizei aquele hábito.
Nas páginas seguintes, faço anotações específicas sobre os dias, incluindo livros que li, filmes e seriados que assisti, bem como reflexões.
Por enquanto está sendo interessante, em particular porque a lista de hábitos é uma lista de coisas nas quais quero prestar atenção. A minha lista inclui:
ler
escrever
desenhar
estudar/praticar japonês
encontrar pessoas
sair de casa
passar protetor solar
lavar o rosto antes de deitar
Aos poucos, vou desenhando um mapa de quais hábitos estão fazendo parte da minha vida e quais ainda nem podem ser chamados de hábitos. Por conta do jeito como eu funciono, ter uma lista de dias nos quais eu deixei de fazer algo que considero importante pra mim impõe uma pergunta: é mesmo algo importante, ou é algo que estou confortável deixando de fora da minha vida? E se for mesmo importante, o que farei para abrir espaço nos meus dias?
Vou continuar fazendo esse caderno de hábitos? Não sei, ainda é cedo para dizer, mas quis compartilhá-lo por aqui porque talvez sirva de inspiração para outros humanos que também estejam organizando suas vidas.
Se for o teu caso, me conta nos comentários?
Uma última nota: essa ideia de que “a diferença entre um lago e uma enchente são as margens” também veio do livro da Corita. Tentei achar a passagem específica para citar aqui, mas não a encontrei. Ainda assim, quis compartilhar porque uau, é uma ideia muito bonita.
Com carinho,
Tales



Ótimas reflexões, obrigado por compartilhar.