🦊 Ninguém deveria precisar sofrer para se encaixar
O ano era 2004. Depois de uma montanha russa emocional, passei no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e finalmente começaria os estudos de Comunicação Social. Logo na primeira semana, veio o famigerado trote.
Durante três dias, nós bixos fomos submetidos a uma série de dinâmicas sociais celebratórias e humilhantes: fomos pintados com tinta, caminhamos pelas ruas enganchados em posições esquisitas, respondemos perguntas íntimas, pedimos dinheiro no sinal, passamos balinha de boca em boca, bebemos cachaça, recebemos gritos e desmandos dos nossos veteranos etc.
Essas dinâmicas eram celebratórias porque eram reconhecidamente tradicionais. Quem entra na universidade federal leva trote, todo mundo sabe disso. Em anos anteriores era ainda pior, os rapazes tinham os cabelos raspados com máquina, todo mundo sabe disso. É um marco, um rito de passagem, um sinal de que alcançamos uma glória invejada e restritiva.
Voltar para casa de ônibus todo pintado de tinta e cheirando a ovo depois de beber vários goles de cachaça pela primeira vez? Parte da experiência, todo mundo sabe disso, todo mundo aceita isso.
Ocorre que essas dinâmicas eram também humilhantes, desenhadas para reforçar um papel de submissão dos bixos frente aos veteranos – que de veteranos tinham apenas seis meses e o desejo incontido de passarem adiante as humilhações que receberam anteriormente.
Esse corpo dócil que acata, aceita e acolhe o que quer que figuras de autoridade demandam é um lugar com o qual tenho muita familiaridade. Eu fui a criança que fez xixi nas calças dentro da sala de aula porque a professora disse que eu não podia ir ao banheiro. Eu sou o jovem adulto que levou um balde e uma vassoura para a sala de aula na sexta-feira da semana do trote porque isso foi requisitado, e ainda hoje vivo com a memória quente da vergonha que senti ao compreender o olhar de desdém de um professor que insistia querer desenvolver pensamento crítico nos estudantes – ao mesmo tempo em que usava seu poder institucional para humilhá-los.
Na época, eu não tinha clareza do que estava acontecendo. Eu não percebia o que todas essas dinâmicas relacionais estavam reforçando, ou de que formas eu estava sendo convidado a me diminuir para me encaixar naquele papel de bixo, de neófito, de recém-chegado ao templo sagrado e restrito do ensino superior.
Infelizmente, não foi ali que aprendi ser possível viver com outros humanos em ambientes nos quais a degradação alheia não seja a regra. Não foi nesse início de um novo mundo, depois de anos escolares marcados por bullying e silenciamento, que entendi que o sofrimento não é um preço necessário para pertencer.
E, embora de forma alguma essas dinâmicas invalidem as experiências que cultivei como parte da faculdade, hoje celebro a consciência e a autonomia para reconhecer, transformar ou deixar espaços e relações que não sejam nutritivos e pautados pelo cuidado, assim como para criar e cultivar ambientes que tornem mais maravilhosa a vida de todas as pessoas.
Como convidar pessoas a pertencerem?
Quero reimaginar o trote. Em vez de um momento de humilhação e separação entre aqueles que estão entrando e aqueles que já entraram, que tal um ritual de comunhão, abertura e pertencimento?
Durante o trote que recebi, em certo momento cada novo aluno foi convidado a subir numa mesa e responder perguntas para uma sala cheia de pessoas. Eram coisas relativamente simples, como nome, orientação sexual e hobby, e o resultado dessa “entrevista” era ganhar um apelido. O meu apelido, filósofo, dado por conta da maneira como eu falava gesticulando as mãos, se perdeu com o tempo. Outros colegas mantiveram os apelidos por mais tempo.
Há muita potência em abrir espaço para que as pessoas que estão chegando possam falar e se apresentar. Porém, se o objetivo da escuta é encontrar brechas para o escárnio, a conexão não acontece.
O formato de entrevista pode, sim, funcionar, mas também poderia ser substituído por rodadas de conversa nas quais tanto calouros quanto veteranos possam se conectar. Mais do que encontrar razões para rir das pessoas novas, o objetivo seria facilitar o encontro de pontos em comum e fomentar novos relacionamentos. Desta forma, aquele momento semearia futuros melhores.
Na época em que respondi à pequena entrevista do trote, disse que era heterossexual. Eu ainda não contemplava a possibilidade de existir no mundo como um homem gay, e menos ainda a de assumir essa posição e identidade nos primeiros dias adentrando em um novo ambiente. Faltavam-me muitas coisas, a começar por exemplos de outras pessoas gays abertamente falando sobre seus desejos e amores. Essa falta dificilmente seria corrigida em um evento único, mas lembro que quando comecei a fazer as pazes com o fato de ser um homem gay, não enxerguei a faculdade como um ambiente seguro para compartilhar esse pedaço de mim.
Lembro que no semestre seguinte, quando foi a vez da minha turma aplicar o trote, as entrevistas também aconteceram. Eu não acompanhei de perto, mas ouvi os rumores sobre o aluno novo que se declarou abertamente gay. Foi a fofoca da vez, e para mim foi um sinal de que os tempos estavam mudando, um brilho de esperança para as próximas turmas. Não participei do trote, mas não acredito que minha turma tenha sido muito diferente dos nossos veteranos. Ainda assim, saber que futuros calouros teriam novos exemplos me aqueceu um pouco o coraçãozinho.
Pessoas sentem que pertencem quando são recebidas com afeto e confiança, quando são reconhecidas pelo que trazem de si em vez de forçadas a desempenhar papéis pre-programados de submissão e silêncio. O pertencimento nasce do encontro, do respeito, da leveza e da liberdade.
Num mundo mais bonito, ninguém precisaria sofrer para se encaixar.
🦊Notas da raposa
Nessa semana consegui a proeza de chutar meu próprio dedo durante o aquecimento num treino de Muay Thai. Já estou quase melhor, mas evitando treinar para que o dedo recupere direitinho.
O Ninho de Escritores está com vagas abertas para nossos encontros de terça-feira. Se tu quer um ambiente seguro para experimentar a escrita, fala comigo e eu te conto mais sobre como funciona!
Com carinho,
Tales


