🦊 Por onde andei
Algumas notas sobre o último mês
Neste momento, escrevo de Bombinhas, em Santa Catarina. Desde criança, passei muitos verões aqui, a ponto de a cidade e a praia terem sabor de casa para mim. Sempre que retorno, percebo incontáveis mudanças, prédios novos, um calçadão iluminado, motinhas elétricas etc., porém tal qual um amigo antigo, há, por baixo de todas essas transformações, uma matriz que reconheço e com a qual me reconecto.
Decidi me reconectar com a escrita em 2026, e reconheço a ironia de fazer essa afirmação após passar um mês sem mandar notícias por aqui. Entretanto, voltei a escrever ficção e estou me esforçando para manter um exercício consistente de captura de momentos ao longo dos meus dias, rabiscando em um caderninho – ou no celular, ou no que estiver ao meu alcance – reflexões, cenas, diálogos, observações etc. Mais do que escrever todos os dias, meu objetivo é viver como quem vai escrever sobre o que vive. E tem sido gostoso tanto o escrever quanto o observar como meu olhar se transforma quando estou atento à ideia de escrever depois.
Como parece ser obrigatório para as pessoas na minha faixa etária, comecei a dar meus primeiros passos na corrida. Já vinha com essa ideia na cabeça há algum tempo e até experimentei correr uma vez em Tóquio, seguindo o incentivo de um amigo, mas até então não havia dedicado tempo e intenção para a atividade. Aproveitei o período aqui em Bombinhas com minha família e pedi à minha mãe que me introduzisse no exercício. Ela gosta muito de se exercitar e corre consistentemente há muitos anos, então me pareceu a companhia perfeita para essa introdução.
Aqui, uma anotação que fiz em meu caderninho:
Hoje vi o mar duas vezes. Caminhei ouvindo as ondas. Pouco me importam as pressões do trabalho quando o mar continua subindo e descendo a areia.
Aqui em Bombinhas tenho saído para caminhar e pensar e também não pensar. Sinto vontade de ir para a rua, mesmo que seja para dar uma volta no mesmo calçadão pelo qual caminhei todas as últimas noites. Essa não é uma vontade que experimento cotidianamente em São Paulo – lá, é algo que preciso forçar. Mais uma vez, percebo que o lugar onde habitamos nos transforma.
Admiro pessoas cheias de energia e disposição.
Uma colega no Muay Thai certa vez comentou que acorda animada nos dias em que terá treino à noite porque realmente ama treinar. Não lembro qual foi a última vez em que senti esse tipo de animação frente à ideia de fazer algo.
Um amigo que participa do Ninho de Escritores às vezes conta sobre como, quando tem cinco minutos aqui ou ali, corre para pesquisar algo relacionado a um de seus projetos, ou para escrever um parágrafo, ou para avançar um plano…
Como deve ser gostoso viver empolgado!
Estou voltando a trazer o idioma japonês para os meus dias. Mesmo após tantos anos de estudos, ainda não me sinto habilitado a usar, ou mesmo a compreender, a língua. Meu objetivo é simples: superar a frustração de não ser capaz, mas num ritmo que caiba na vida, sem pressa, mas sem perder tempo.
Obrigado pela leitura.
Com carinho,
Tales



Thales, que gostoso ler seu texto. De uma caminhada, passa para um comparativo entre o que se sente em cidades diferentes, que traz a lembrança de amigos que mantém em si essa energia vital de disposição, quase empolgação, e termina com essa bela reflexão que me atravessou por aqui “superar a frustração de não ser capaz”. Você traduziu algo que estou vivendo, é isso, quero superar minha frustração e também ter mais disposição. Talvez, também, precise sair para caminhar à beira mar. Obrigada por escrever. Foi bom te ler nessa manhã de sábado.
Boa volta! Ótima corrida!